Elenara Leitão: Uma menina que gostava de ler e desenhar!

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Era uma vez uma menina que gostava de ler e desenhar. Não sei dizer qual era mais importante para ela. A leitura a levava para um mundo fascinante de descobertas. O desenho fazia real, em sua cabeça, esse mundo que ela imaginava. Essa menina, caçula da família, tinha sonhos. Queria ser uma hora arqueólogo para descobrir o ontem. Outras queria ser astronauta para descobrir novos mundos, novas civilizações. (sim, era Trekie da série original)

Essa menina cresceu e não foi nem um, nem outro. Virou arquiteta. Foi desenhar soluções de espaços para que outras pessoas pudessem viver melhor. E virou bogueira também porque pesquisar e escrever eram tão preementes quanto desenhar.

Essa menina sou eu.

Nem tão menina hoje. Por fora. Por dentro continuo uma mistura daqueles olhos crédulos e daquela ânsia de saber mais e mais.

Como se deu essa transformação?

A opção pela Arquitetura foi cedo. Aqueles desenhos de casas, aqueles móveis que fazia em caixas de fósforos e organizava em ambientes para as bonecas me fizeram ter uma opção: engenharia. Não tinha muito escolha naqueles anos da década de 60. Era medicina, engenharia ou direito. As escolhas básicas que cada um fazia: saúde, exatas, leis…Mas…numa sociedade machista, minha mãe tomou a dianteira e decretou: Arquitetura é melhor para mulher. Pronto. Estava definido.

Chocante. Pode ser. Tantas decisões são tomadas nas nossas vidas com base em frases e concepções de outros. Ainda mais quando se tem 12 anos. E lá fui eu, acelerando os anos escolares. Fiz exame de admissão e pulei o quinto ano. Peguei a reforma do ensino que mudou o ginásio (que tinha começado) em segundo grau. E o fiz em dois anos. Como? Não me pergunte, só duas turmas no Brasil (que eu saiba) tiveram essa chance. Uma foi a minha, em Brasília.

Assim, lá estava eu, com 16 anos, tendo que fazer A OPÇÃO. Cara, escolher uma profissão aos 16 anos é uma loteria. Já tinha feito teste vocacional e deu História (sim, eu amo). Nem levei em consideração. Dar aula? Nem pensar. A Arquitetura seguia firme na minha cabeça.

Na hora de marcar o vestibular, minha cabeça se dividiu: processamento de dados (que começava a surgir), engenharia elétrica (nem me perguntem o porque) e Arquitetura. Que acabou vencendo.

Passei. PASSEI!!!! Lembro até hoje da sensação de ouvir o nome da colega no rádio e saber que o próximo teria que ser o meu. Ou não seria. Durou séculos aquela espera.

A Arquitetura me ensinou não apenas técnica. Me ensinou lições de vida. Falei no blog das 10 lições que aprendi na faculdade.

Saí em 1982. E de lá para cá muitas vezes me sinto como a eterna estudante da vida. Trabalhei sozinha, trabalhei com sócios homens e mulheres. Fiz parcerias em ONGs. Realizei sonhos de pessoas nas suas casas e locais de trabalho. Executei obras quando a presença da mulher não era comum no canteiro de obras. Fui chamada de engenheira por quem não sabia que arquiteto executa sim. Lembro de alguns momentos lindos:

  • Um mestre trouxe seu filho pequeno, anos depois de uma obra pronta, para ele conhecer o que o seu pai tinha feito: Uma casa feita por dois homens!
  • Clientes confidenciando suas vidas e confiando a mim seus sonhos. Muitos viraram amigos.
  • Clientes me recomendando para amigos, mesmo depois de muitos anos do trabalho feito.
  • Projetos que saíram como milagre e outros que foram partejados a forceps. Mas que no final, atendiam aos requisitos das pessoas que os iam usar.

Não. Nem tudo foi um mar de rosas. Tive momentos de dúvidas. Tive vontade de largar. Cheguei a fazer um concurso para uma carreira pública, dessas que pagam MUITO bem. E na hora da prova pensei comigo ao ver as questões: se eu tiver que trabalhar com isso vou ser infeliz o resto da vida.

Era uma vez uma arquiteta. Que pelo meio do caminho fez um mestrado na engenharia de produção e teve que ouvir, aos 39 anos que era velha demais para voltar aos bancos escolares. E que respondeu para a banca de doutores que fizera questão de conhecer o mundo real e ter experiência para assim aprender mais e melhor.

Era uma vez uma menina que se encontrou com a pesquisa, formatou um sonho antigo, aprendeu as novas tecnologias e entrou na internet. E virou blogueira. Por prazer. E viu o seu blog crescer, fazer parte de uma rede de colaboradores de uma grande multinacional. E continuar a lhe dar mais prazer de compartilhar o que sabia e pensava.

Era uma vez uma mulher, arquiteta, mestre em Eng de Produção, gateira e livre pensadora que fez escolhas, passou mais de 10 anos sem férias cuidando de mãe e pai quando eles, que tanto fizeram por ela, precisaram de seu carinho e atenção. E conheceu hospitais, ambulâncias e remédios que o pessoal da saúde achava que ela era da área.

Era uma vez uma vida e escolhas. E hoje, olhando para trás, talvez tivesse feito uma ou outra coisa diferente. Pensando bem, vou pegar essa experiência de vida e vou fazer diferente hoje. Porque é no hoje que posso agir. É no hoje que posso realizar sonhos, meus e de outras pessoas. É no hoje que posso traçar os passos do amanhã, dos “novos mundos, novas civilizações”. Sempre com o alicerce seguro do conhecimento do passado, arqueologicamente estudado, analisado e entendido. Talvez seja isso que se chama de maturidade.

E como toda história real, o futuro está em aberto. E nas minhas mãos.

Elenara Leitão


ELENARA LEITÃO

Arquiteta
www.elenaraleitao.com.br

2 Comments
  • Elenara
    novembro 10, 2016

    Super obrigada pela oportunidade de compartilhar um pouco de minha trajetória nesse teu espaço tão inspirador! É nas trocas que a gente aprende e cresce mais! Beijos

    Elenara

    • ConverseCom
      novembro 17, 2016

      Minha querida amiga Elenara, só tenho a agradecer ao Twitter (e a vida!) o dia que nos encontramos. Você é meu exemplo de pessoa digna, generosa, alma iluminada! Obrigada por fazer parte disso! :)

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